Texto inspirado no poema de Mário Cesariny, Pastelaria. Para ler o poema, clique aqui.
Podia ser num sítio qualquer, um sítio ao acaso. Mas não. Era A Pastelaria. No fim da rua, mas no princípio de tudo. Um mundo à parte, um mundo irreal, um mundo sem nexo, meu e teu, de fantasias, mas tão perfeito. Uma outra dimensão, do outro lado da minha janela.
Entravas e fingias. Bastava sentares-te na mesa da velha, imaginá-la sem o peso do tempo, com os seus caracóis dourados em vez de platinados, as bochechas rosadas, a tez pálida e os lábios vermelhos, e tu, quem sabe, o seu belo galanteador.
Pessoas altas, pessoas baixas, pessoas gordas, pessoas magras, de cabelos compridos, de olhos verdes ou azuis, caras redondas, jovens ou nem por isso, com narizes pontiagudos e decotes salientes. Bebiam chá e café, simples refrescos ou leite fresco. E nas mesas, pequenos pães e pessoas simples, contrastando com voluptuosas fatias de bolo e voluptuosas senhoras de chapéu.
E então avistavas-me, sentada a um canto, mesmo no fundo da sala. E divertia-me. Assistia, impune, a todo aquele espectáculo. E deleitava-me. Tantos actores, tantas máscaras. E podias ouvir, só eu não gritava e só eu não dizia «Gerente! Este leite está azedo!». A mim apenas me importava, pôr ao alto a gola de peludo e os óculos escuros, tal estrela de cinema. E sair. E então lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo, e apenas de tudo.











